quarta-feira, 15 de abril de 2020

Beber água com as mãos: sobre a necessidade metafísica da duração em Nietzsche

Quando se sente uma sede intensa, na qual sentimos querer beber toda água do mundo e não temos acesso a um copo, unimos as mãos e com elas criamos uma espécie de copinho humano. No entanto, destoa o fato de gozarmos unicamente com a água que nos cabe, momentaneamente, as mãos, em vez de toda água do mundo. De certa forma, esquecemos toda água que escorre e nos escapa a mão ao beber; parece-nos que toda a água do mundo, aquela que queríamos para saciar nossa necessidade encontra-se ali, consolidada na mão, apartada de toda sua parte que escorre, enquanto incessantemente a torneira jorra agua. Dessa atividade humana, por excelência, é possível evidenciar uma outra atividade mental humana, uma espécie de necessidade de crer na completude e eternidade.

Parece existir aí uma condição para a não-frustração da perda inevitável: a ilusão da posse. A ideia de possuir a água, ter-a em mãos, esquecendo sua condição de existência que é, nessa situação, efêmera e transitória, esquecendo, sobretudo, a incapacidade da mão de segurar a água eficazmente, de maneira duradoura, é inconsciente a real dependência do fluxo de água, o qual provem de fonte externa (existe independente da vontade de quem tem sede), único que faz permanecer cheio as mãos de quem tem sede. E essa inconsciência da condição parece (digo isso devido ao incomodo de não poder gozar daquela agua, parte de toda água do mundo, que nos escapa; aquela que, quando percebemos a falta, temos vontade de transformar a torneira num canudo para com a boca sugar "toda água do mundo") ser essencial para gozar da morte daquela sede de "toda água do mundo".

Essa condição explicita-se em 2 artifícios presentes na atividade humana de beber agua com as mão: 

(i) fazer o copinho para ter em completude a água, na tentativa de consolida-la em mãos para desfrutar delas por completo, i. é, fazer o copinho não para beber água apenas, mas para beber toda água do mundo, íntegra ali, nas mãos do necessitado. 

(ii) Somado a isso, com as mãos, ocultar a perda e possuir o controle temporal, substancial, existencial sobre toda água do mundo, na tentativa de fazer durar a água em meio ao fluxo que impele a perda de alguma água vazando ou transbordando - perda que impossibilitaria o sujeito necessitado de beber "toda água do mundo"; em outras palavras, com as mãos, ocultar a perda é ocultar a real situação, na qual a existência da água não é internamente controlável, não depende da necessidade do indivíduo. Então, por meio desse artifício a mão segura-a independente do tempo e das condições materiais, ou seja, há poder ilimitado de posse para o gozo da mesma.

Portanto, seguindo esta insensata alusão metafórica é possível concluir que, ter por completo e para sempre é o que queremos ao beber agua com copinho de mãos, sem perder, sem frustrar-se.

Assim sendo, a condição da necessidade metafísica da alma de duração, tendência ao eterno e a posse ilimitada, dita por Nietzsche, mostra-se evidente. E desta, criamos instrumentos para contornar a realidade e saciar a necessidade da alma: copinhos de mãos.
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Doravante, ao reavaliar essa metáfora é necessário dizer que ela simplifica com descuidado as diversas características das necessidades fisiológicas e, também, não desenvolve a ideia de possuir toda água do mundo. Notar-se-a, também, ao acompanhar a metáfora, que a água que existe nas mãos no fluxo não somente escorrem, mas transbordam, e o transbordar, de certa maneira não seria motivo para a frustração, mas de tranquilidade, o que há de se considerar dado que, o excedente também faz parte da água do mundo que escapa as mãos. Assim sendo, como não é prescindível esse elemento à imagem da metáfora, ele deverá ser abordado com melhor atenção numa continuação futura desse texto.

Além disso, digo que foram expostas tendências à uma suposta inércia do eterno, oriunda de uma condição prévia, um modo de pensar a existência. Considero existir também uma inclinação humana à um outro eterno, não estacionário mas característico desse fluxo de toda água do mundo, o qual eu poderia discorrer em outro texto, acessando dessa vez outras ideias com outros autores e, talvez, reiterando o meu pensamento nietzschiano, que de Niezsche mesmo, apenas de maneira supérflua e pouco rigorosa eu me empenhei em trabalhar, mas que, apenas assim, me foi passagem para algumas ideias.

Por fim, ainda é necessário dizer a respeito dessa metáfora que dela é possível derivar à uma outra questão que seria a ideia de morte - que toquei, não sem alguma ardileza, ao falar da "morte da sede" - tema privilegiado quando se trata da condição existencial do fluxo e da confluente transformação incessante que dele decorre. Desta forma, expresso e concluo com meu intento de, no futuro, fiar essas linhas soltas desse texto.

Marcel Delfino Carvalho de Souza

Um comentário:

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