quarta-feira, 1 de abril de 2020

LIBERDADE HISTÓRICA

Bem, a ideia de liberdade anteriormente apontada como equívoca sustenta que não é possível prever os acontecimentos em totalidade. Ela ganha força ao se sustentar na ideia de desconhecermos ou não termos a devida precisão sobre os determinantes de nossas ações. Nesse sentido, interessa-me saber, para dar forma a uma possível liberdade, de que modo chega-se na conclusão “não somos livres porque não conseguimos predizer todos acontecimentos”.

Essa conclusão possivelmente se deve ao fato de reconhecermos que quando, por exemplo, esquecemos um celular no ônibus, aconteceu algo no transcorrer da história não percebido, algo que nós fizemos e não percebemos, que nos determinou e não fomos capazes de perceber e evitar. Uma maneira de descrever essa situação é: colocarmos numa cadeia de acontecimentos, um acontecimento, que não foi percebido, determinante para a perda do celular, por exemplo, “o celular escapou do bolso dessa minha calça frouxa”. Trata-se de um acontecimento que não foi predito, e, por assim ter sido, se fez de acontecimento que sustentou a minha não-liberdade, se fez de acontecimento esquecido. 

Nós, então, não podemos nos dizer livres porque não “predizemos” ou “predizemo-nos” acertadamente. Mais precisamente, não fomos capazes de predizer, no passado que se foi. O ato de predizer ou sua falha, se concretizam num momento presente que sucede um momento passado da tentativa de predição, num presente momento de reconhecimento do que “aconteceu”: reconhece-se, então, a perda ou não de algo. Essa é a natureza da consciência que se diz não liberta, é natureza voltada para o reconhecimento da não predição, ou em outras palavras, voltada para a história do fracasso da predição. No entanto, essa frase por inteiro caracteriza apenas a relação da consciência com seu ideal de liberdade. Para conseguir assumir uma outra natureza de consciência possivelmente livre, deve-se dizer, a natureza da consciência é voltada para a história, ponto final.

O acontecimento é reconhecido historicamente, é isso que, nós humanos, fazemos, dizemos “aconteceu”. Explicamos a situação presente a partir de um encadeamento que inventamos no presente. Seria prudente, talvez, dizermos “lembramos” em vez de inventamos, uma vez que o leitor pode estranhar que o passado seja algo inventado, principalmente, logo após de se afirmar uma consciência voltada para a história. É preciso, portanto, diferenciar passado de história.

Em poucas palavras, passado, como pretendemos tratar aqui, é um fato, a história uma experiência de memória. O passado refere-se ao imutável, inquestionável e que se diz por si mesmo. Na lógica do passado, “acontecimento” não é a melhor palavra para usar a fim de chamar algo que se passou, mas sim a palavra “fato”. A história, por sua vez, refere-se ao que é mutável, questionável, que depende sempre de narradores, suas experiências e suas memórias; pra história a melhor palavra para significar o que se passou não seria “fato”, mas sim “acontecimento”. Tanto a história quanto o passado dizem a respeito ao que se passou. Porém, quando se diz que a história é inventada, não está se dizendo “o que acontece conosco não é verdade”, mas sim que, para as coisas “se passarem” elas devem ser criadas como memória e assim tornarem-se história.

Portanto, a ideia de fato se opõe a de acontecimento, porque o fato independe de um narrador, ele independe de alguém dizê-lo ou vê-lo, o fato se passa sem que ninguém o diga e sem que ninguém o veja, independe de testemunhas. O fato é visto independente de um observador, mesmo não tendo sido visto diz-se “é fato, aquilo ocorreu”, ele auto-testemunha-se, é visto por si só. No entanto, da mesma maneira como se duvidou no texto passado da vontade auto-determinante, deve se perguntar: quê é esse fato senão a crença numa dedução ideologicamente sustentada pelo observador?

O observador e seu papel de testemunha é suprimido quando se fala de fatos. Muitos motivos podem estar por trás desse movimento supressor, até mesmo a incapacidade de conviver com essa impossibilidade de se escapar da natureza histórica. Como havia sido discutido sobre a liberdade preditiva no último texto e agora tendo em vista que o ser não-livre é aquele da história do fracasso da predição, deve-se compreender então que o ser livre deve ser o ser do acontecimento. 

A ideologia dedutiva dos fatos concede a eles a característica de serem auto-testemunhas de si mesmos, independem de narradores para estarem na “história”, são visivelmente partes da história, evidentes. Por outro lado, o acontecimento, não a toa como a paixão, é cego, depende sempre de um observador, alguém que o veja, uma testemunha, um narrador. Darei um exemplo: uma foto, uma foto só pode ser aquilo que acreditamos que ela seja, um rastro do passado, quando aquilo que se vê tem para o observador um significado no momento em que a foto se mostra, no presente: isto é, o passado é um sentido presente. 

Isso implica dizer: nada no mundo “era”, segundo a perspectiva da história, antes dos humanos terem visto e dito que “foi”, “aconteceu”. O celular, por exemplo, não se vê a si mesmo sendo perdido, ao menos que imaginemos que ele tenha vida, nesse caso ele auto-testemunharia-se: se ele ficasse no ônibus e não tivesse ninguém para sentir sua falta ou pegá-lo posteriormente dizendo “alguém esqueceu, agora é meu!” não seria ele celular-perdido, não teria realidade como acontecimento, não seria sequer possível dizer que ele já esteve em algum momento lá. A existência de um acontecimento, portanto, depende de um elo entre o que se passou e o que se passa agora, feito sempre por alguém.

Vimos que a liberdade impossível se sustentava num ideal de liberdade aquém ao humano. Percebe-se agora outra face do mesmo ideal, porém no que diz respeito a história. A história dos fatos não é a história humana, mas uma história que, assim como a liberdade auto-privativa, suprime o humano, história ideal. Não é preciso lembrar a história dos vencidos para esclarecer que uma liberdade humana estaria indissociavelmente ligada a uma história humana, ambas voltadas para a história dos sujeitos, isto é, não fatídica mas memorável, questionável, dialogada, narrada de um para outro.

O objetivo desse texto é de, com isso, mostrar uma natureza criativa de elos que não suprime uma suposta realidade dos fatos enquanto dá espaço para os sujeitos. Se entrevê aqui, sobretudo, uma realidade de maior rigor, a dos sujeitos, os quais fazem as histórias que existem na medida em que as contam, isso implica uma necessidade: deles ser ouvidos. Percebe-se, dessa maneira, não apenas uma natureza histórica do laço entre o passado e o presente, memorável, mas uma natureza do laço social, na qual “narração e memória fazem-se de um mesmo rio que é o tempo"1  comum. Uma liberdade histórica, nesse sentido, certamente seria, também, uma liberdade comum.
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1 Mia Couto na conferência dada na UFRGS: https://www.youtube.com/watch?v=IZtc11Bn0M0&t=731s
Marcel Delfino Carvalho de Souza

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